Vida de Ozanam

História do Beato Frederico Ozanam

 

ORIGEM

No dia 1º de maio de 1813 era levada à pia batismal, na igreja da Santa Maria dos Servos, em Milão, uma criança do sexo masculino, nascida a 23 de abril; tomou, então, o nome de Antonio Frederico Ozanam, quinto filho de João Antonio Ozanam e Maria Nantas, ali residentes, vindos de Lião, na França, de onde haviam emigrado para conseguir trabalho. João Antonio alcançou isso, primeiro como professor e, depois, como médico.

João Ozanam tinha lutado nos exércitos de Napoleão, chegando a Capitão. Muito valente, certa vez, acompanhado de dois cavalarianos, arrebatou seu pai das mãos dos jacobinos, que o tinham aprisionado e o iam condenar à morte.

Inconformado por se ter Napoleão feito Imperador, abandonou a carreira militar, tentando o comércio, sem êxito, por falta de habilidade. Mudou-se para Milão, conseguindo formar-se em Medicina, chegando a ocupar a chefia clínica do Hospital Militar da cidade.

Quando os franceses abandonaram Milão, João Antonio regressou a Lion, ali impondo-se facilmente, conquistando por concurso o cargo de médico da Santa Casa e alcançando grande clientela.

Apesar dessa posição destacada, ocupava-se com a esposa em socorrer os pobres, visitando-os nos seus casebres e águas furtadas, assim procedendo os dois até muito idosos.

Dos 14 filhos do casal faleceram quase todos na infância, sobrevivendo com Ozanam, Afonso (padre) e Carlos (médico).

O menino Frederico era franzino e doente, o que concorria para aumentar os cuidados que a ele dedicavam sua mãe e sua irmã Elisa, que morreu aos 18 anos. Acometido de tifo, aos seis anos, este à morte, escapando graças à assistência desvelada das duas e a uma promessa a São Francisco de Régis. Essa dedicação recordava Ozanam depois, dizendo "Meus bons pais não me largaram a cabeceira durante 15 dias e 15 noites".

Como conseqüencia das atenções de que era cercado, o menino Ozanam apresentava vez por outra atitudes de rebeldia, de que ele mesmo se acusou, escrevendo mais tarde ter sido, pelos oito anos, "colérico, desobediente, e preguiçoso". Havia nessa confissão algo de exagero, pois, segundo depoimento de seu irmão, padre Afonso, ele era às vezes intratável, mas, "de pureza angélica, impecável sinceridade e cheio de compaixão pelos sofredores, repelindo o mal e acolhendo o bem".

Facilidade nos estudos

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Apesar de franzino e doente, Frederico, desde os primeiros anos, demonstrou inteligência viva, acompanhando, com atenção os estudos os irmãos mais velhos, chegando a repetir integralmente passagens das lições deles. Aos nove anos entrou para o Colégio Real de Lião, ali despertando sua vocação literária. Ele atribuía essa inclinação para as letras à influência de sua mãe, auxiliada pela irmã Elisa, "tornando as lições verdadeiro prazer". Não esquecia também a influência do pai.

Maria Nantas era inteligente e culta, dando aos filhos sólida formação cristã, e isso Ozanam recorda, ao escrever mais tarde, que "foi sobre seus joelhos que aprendi vosso temor, Senhor, e sob seu olhar, o vosso amor". De sua primeira comunhão conservou suaves recordações, afirmando: "Ó dia feliz! Que minha língua fique pregada no céu da boca se jamais te esquecer!" E acrescenta que todos notaram como ele se tornara modesto e dócil.

No Colégio, Frederico despertava entre seus mestres a maior admiração, distinguindo-se pela facilidade com que aprendia as lições. Destacava-se pelo brilho da inteligência e beleza dos sentimentos. Parecia trazer inatas as centelhas da poesia e eloqüencia. Ainda não atingira os 13 anos e já compunha em prosa e verso, tanto em francês como em latim, verdadeiras maravilhas. Muitas dessas composições enfeixavam mistérios da vida de Jesus e louvores à Virgem Santíssima

Dúvidas de Fé

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Foi em plena adolescência, que Frederico sentiu turvar-se o céu de sua fé com nuvens perigosas, agitadas pelas rajadas da dúvida religiosa.

Ele pagava com esse tormento o despertar precoce de suas atividades intelectuais. Discutia consigo mesmo, em desespero, os dogmas sagrados, e tinha a impressão de esmagá-los com as mãos. Cercado de incrédulos, que disso se gabavam, perguntava-se por que tinha fé. Com isso torturava-se ansioso.

Embora duvidando, ele confiava em Deus, e, entretanto numa igreja, diante do Santíssimo Sacramento, prometeu, se alcançasse penetrar a verdade, consagrar sua vida inteira à defesa da fé. E Deus mandou-lhe, em auxílio, o célebre Padre Noirot, que conseguiu, em pouco tempo, segundo o próprio Ozanam, restituir-lhe a solidez da razão bem esclarecida, que a ele aderia, criando raízes, para resistir à torrente da dúvida. Passou à sentir, então, profunda pena dos incrédulos.

Âncora de salvação para a alma atormentada do jovem Frederico, o Padre Noirot era um desses educadores de fina raça, que penetrava com sutileza os pensamentos e dúvidas da juventude, quando esta tentava delinear os segredos do futuro. Professor de filosofia no Colégio de Lião durante vinte anos, procedia como Sócrates. Gravou forte impressão na jovem e brilhante geração da época.

Ozanam tornou-se seu discípulo predileto, acompanhando-o em longos passeios por caminhos solitários.

Combate ao "Cristianismo Novo"

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Depois de 1830 foi Lião invadida pela pregação de uma nova doutrina, intitulada de "Cristianismo Novo", surgida em Paris, invenção do conde Saint-Simon, que adquiriu muitos adeptos. Nada mais era do que uma deturpação do Catolicismo, transformado em reivindicações econômicas e políticas.

Era o surgimento do Socialismo, embora Saint-Simon não tivesse empregado a palavra, adotada depois pelo economista inglês Roberto Owen. Ozanam, apesar dos seus 17 anos, resolveu combater a investida sansimoniana.

Sentindo o perigo daquela mistura de Cristianismo com Socialismo, Ozanam escreveu um vibrante artigo publicado no “Precurseur”, que apoiava a nova religião. Nele, destruía as mentiras do sansimonismo, dizendo: “A História o desmente e a consciência da humanidade o reprova; o senso comum o repudia. Contraditório em seu princípio, seria desastroso, ao mesmo tempo que impossível, no seu final, fazendo recuar para longe o gênero humano no rumo do progresso e da civilização".

O artigo, depois enfeixado em folheto com o título de “Reflexões Sobre a Doutrina de Saint-Simon”, alcançou repercussão extraordinária, com elogios exultantes de grandes escritores da época, como Lamartine, Chateaubriand ou sábios como Ampère.

Outro qualquer se teria enchido de orgulho, mas o moço estreante sentia que não era homem de vanglórias mas de encontrar-se a si mesmo, aplicando aos seus atos "a regra do amor: amor de Deus e do próximo".

Mudança para Paris

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Para tanta juventude, era sublime. Concluído seu curso colegial em Lião, resolveu seu pai enviá-lo, afinal, a Paris, para o Curso de Direito, visto não haver na sua cidade Faculdade para essa formatura. A decisão não agradou a Ozanam, visto como não pretendia as letras jurídicas e receava as tentações da "nova Babilônia" em que se transformara a capital francesa, para onde acorriam reformadores e revolucionários, juntamente com cientistas e gozadores da vida. Confiava em Deus e nos ensinamentos maternos.

Para aquele jovem de 18 anos, educado em família cristã, Paris se apresentava como “vasto cadáver ao qual se teria de amarrar, tão moço e tão cheio de vida”. E, por isso, dizia, "Paris me deixa gelado, Paris me mata" , ao sentir-se “no meio de uma multidão inepta e sensual”. Honesto e inocente, receava a corrupção e a irreligião dominantes naquele “mundo pérfido”, que chamavam Cidade Luz. Essas as primeiras impressões de Ozanam, vendo Paris.

Por indicação de velha amiga de sua mãe, hospedou-se numa pensão ordinária, cujos hóspedes, tanto homens como mulheres sem religião e sem educação, não guardavam conveniências e, sabendo-o católico, dirigiam-lhe gracejos irreverentes, troçando por conservar ele o costume de jejuar. Procurava consolar-se, com lembrança de sua mãe e muita oração.

Felizmente encontrou no Padre Marduel, constante amparo, conselheiro íntimo, servindo- lhe "de pai e mãe"; sem ele "teria morrido de melancolia".

A amizade com o destacado cientista Ampère

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Visitando Lião, Ampère, sábio católico, encontrou Ozanam, a quem externou admiração pelo seu trabalho contra Saint-Simon, exigindo que, indo a Paris, o fosse ver . Lembrando-se desse convite, foi ele ter com Ampère, que o recebeu com efusão. Na conversa, Ozanam referiu-se ao desconforto de sua pensão, principalmente à irreligiosidade reinante. Para seu espanto, o sábio, mostrando o quarto do filho em estudos na Alemanha, ofereceu-lhe hospedagem até que este regressasse.

André-Maria Ampère andava pelos 56 anos e já ocupava lugar destacado no mundo científico. Membro do Instituto, professor de matemática da Escola politécnica e. de Física no Colégio de França, admirado na Inglaterra, Alemanha, Suécia, Bélgica.

Era o maior nome científico de seu país e do século. Apesar de grande fama era um católico decidido e humilde, ajoelhando-se, rezando contrito na igreja, diante do Santíssimo Sacramento, como o encontrou certa vez Ozanam.

O jovem, cheio de saudades dos pais, encontrou na casa de Ampère agradável ambiente familiar. Tendo perdido a esposa, o grande sábio era atendido pela irmã, consolado pela filha Albina, orgulhando-se pelos triunfos do filho João-Jacques, que alcançou renome nos meios literários.

A presença de Ozanam animava de certo modo a casa, e, escrevendo ao pai, narrava como era bem tratado, ficando à vontade na mesa e participando de palestras interessantes e instrutivas.

Graças à amizade de Ampère conseguiu Ozanam freqüentar o Instituto de França, consultando sua maravilhosa biblioteca e conhecendo pessoas célebres. Uma das suas primeiras aproximações foi Ballanche, bom católico, eminente literato, a quem se ligou como a um bom mestre, embora fazendo reservas às suas profecias apocalípticas. Apesar disso, as idéias de Ballanche nele influíram, ao afirmar que, malgrado a incredulidade, a Europa guardaria a fé e o Cristianismo não afrouxaria nem desapareceria das nações.

O encontro com Chateaubriand

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Ozanam aspirava ardentemente encontrar-se com Chateaubriand, autor do "Gênio do Cristianismo". Trouxera carta do cônego de Lião, padre Bonnevie. Encontrou-o quando regressava da missa. Afavelmente acolhido, na conversa perguntou-lhe Chateaubriand se ia ao teatro. Ozanam respondeu que prometera à mãe jamais freqüentar teatro, tendo o escritor concluído: “Siga o conselho de sua mãe. Você nada ganhará indo ao teatro e, antes, teria muito a perder”. Isso lhe ficou na memória para sempre.

A convivência de Ozanam nesse mundo de cientistas, sábios e filósofos era uma preparação para os próximos vôos que a jovem águia teria que desferir. A Sorbona o esperava, pois era lá que iria desenrolar-se seu campo de batalha e alcançar suas vitórias. A Sorbona, fundada em 1250 pelo padre Roberto Sorbon, capelão do rei S. Luís, caíra nas mãos de adversários da Igreja. E a tarefa de enfrentá-los ia caber a Ozanam.

A procura de companheiros cristãos na faculdade

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Ozanam viera a Paris, para fazer o Curso de Direito, por determinação paterna, Era preciso iniciar os estudos, o que fez em meados de 1831, a eles dedicando-se inteiramente, não só assistindo às aulas, mas redigindo as lições que acabava de ouvir. Além disso, comparecia às conferências e debates entre advogados, procurando conhecer de perto a prática da exata aplicação das leis, fosse como defensor, fosse como acusador, desenvolvendo com isso o seu talento oratório.

Mas Ozanam tinha outras intenções na freqüência assídua às aulas e cursos. Ele ansiava por conquistar companheiros para uma tarefa toda especial. Desejava cercar-se de colegas que sentissem e pensassem como ele no tocante aos ideais cristãos e verificar como era “difícil reunir defensores em torno de uma bandeira”. Ele sabia que existiam esses procurados companheiros e já encontrara mesmo jovens que consagravam, embora isoladamente, os mesmos propósitos por ele acalentados. Precisava reuní-los.

Aparentemente faltavam a Ozanam qualidades de liderança. Não podia contar com o prestígio da beleza nem com ar autoritário. Mas era a bondade em pessoa, numa simplicidade que atraía simpatias. O que lhe dava mais destaque era a sua vigorosa inteligência e a maneira de agradar quase espontânea. Humilde por natureza, não avançava em intimidades, mas sabia despertar amizades imperecíveis. Essas qualidades lhe valeram as primeiras aproximações com aqueles que iriam ser companheiros inseparáveis.

Como não podia deixar de acontecer, foram estudantes lioneses os primeiros a participarem da amizade de Ozanam, começando pelo primo Pessonneaux, vindo a seguir Janmot, seu companheiro de primeira comunhão, Velay, Jouteaux, Perriere e Chaurand, que iriam formar na primeira Conferência de São Vicente de Paulo em Paris e depois em Lião. Ozanam via neles aproximar-se a fonte para jorrar o amor, como da aproximação das nuvens nascem raios. Mas ainda não era tempo.

O início da amizade com Lallier

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A hora das grandes batalhas ia-se aproximando. Um dia, no Colégio de França, o professor Letrone aproveitou uma aula de egiptologia para achincalhar a Bíblia. Ozanam reprovava as injúrias com significativos movimentos de cabeça, tendo notado que outro estudante fazia o mesmo.

Finda a aula, tentou encontrá-lo, sem resultado. Noutro dia, aquele estudante viu Ozanam num debate com outros colegas, dele aproximou-se. Cumprimentou-o, sendo correspondido, logo travando amizade: Era Lallier.


O início da amizade com Lamache

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Noutra feita, na Escola de Direito, um estudante prestava atenção à atitude séria de Ozanam e procurou conhecê-lo. Encontrando-o na saída da igreja de Santo Estêvão, alegrou-se por sabê-lo católico. E propôs serem amigos. Era de Goy.

Outro católico, filho de médico e segundanista de Direito, aproximou-se de Ozanam, estendendo-lhe a mão. Era Lamache. Outros apareceram mas somente três mosqueteiros permaneceriam na futura arena vicentina: Ozanam, Lallier e Lamache.

Ozanam combate à irreligiosidade dentro da Sorbona

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O pequeno grupo crescia, movido pelo mesmo fim: Defesa da Religião em face da irreligiosidade audaciosa e triunfante. O anticristianismo dominava raivoso na imprensa, em comícios, na Sorbona, nesta principalmente, com a agravante de sofrerem ataques violentos os estudantes católicos. Com a arregimentação dos mais dispostos, Ozanam organizou a reação, em defesa da causa de Deus, mostrando ainda que se pode ser católico e amar ao mesmo tempo a religião e a liberdade.

As escaramuças iam-se transformando em combates, como escrevia Ozanam a Falconet. Num dos principais, a turma enfrentou Jouffroy, proeminência do ateísmo, verdadeiro semeador de ruínas: as da fé e da razão. Numa aula sua atacou a Revelação. Um dos colegas de Ozanam refutou aquele disparate em carta, pois os alunos não podiam contestar o professor. Jouffroy ofereceu resposta vaga, o que levou o estudante a mandar-lhe nova carta, a que ele não ligou.

Não se conformando com o ostensivo desprezo do professor, Ozanam e companheiros redigiram um protesto em regra, que ele se viu compelido a ler perante mais de duzentos alunos, que escutaram respeitosamente aquela inusitada profissão de fé católica, e, mais ainda, (a retratação de Jouffroy, declarando que jamais pretendera desfigurar o Cristianismo, pelo qual tinha alta veneração e que iria esforçar-se, daí por diante, para não mais atacar as crenças dos alunos.

Não fazia seis meses que Ozanam iniciara seu Curso de Direito e já conseguira transformar, de modo impressionante, o ambiente da Sorbona, com os ataques à religião menos violentos e os professores mostrando-se mais moderados na sua linguagem. E o próprio Jouffroy foi amortecendo seu ateísmo militante, a ponto de afirmar antes de morrer: “Todos esses sistemas científicos não conduzem a nada!” “Mil e mil vezes um bom ato de fé cristã”

Ozanam e seus amigos buscam formação religiosa


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Ozanam permanecia atento, mas entendia ser necessário maior preparo no tocante à formação religiosa, a fim de se poder enfrentar os adversários. Recorreu, então, juntamente com os companheiros, ao Padre Gerbert, professor de Sagradas Letras na Faculdade Teológica de Paris, filósofo, teólogo, escritor e aplaudido jornalista. E os resultados foram excelentes, afirmando Ozanam que jamais ouviu doutrina mais profunda, exposta para uma assistência em que se misturavam homens célebres com jovens entusiasmados.

Apesar do êxito das conferências do Padre Gerbert, Ozanam pretendia ir mais longe, sair daquele recinto fechado para um lugar mais amplo e capaz de atrair auditório ainda maior. E foi lembrada a grande nave da igreja de Notre Dame, idéia por todos aceita. Mas faltava a aprovação do Arcebispo D. Quélen, que recebeu com agrado a sugestão, acrescentando ter o pressentimento de que “algo de grande estava em preparo”. Mas nada decidiu.

A demora do Arcebispo em resolver o assunto enervou os jovens estudantes. Resolvem fazer nova investida com petição de 200 assinaturas, entregue por Ozanam, Lallier e Lamache. A dificuldade era encontrar um orador sacro, à altura do cometimento. Vários nomes foram sugeridos, mas sem as necessárias qualidades para a importante missão. O célebre Padre Lacordaire era o candidato dos jovens, porém “certos acontecimentos impediam sua aprovação pelo Arcebispo. Assim, o melhor era esperar”.

As Conferências de História

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Enquanto o Arcebispo de Paris não resolvia a realização de conferências em Notre Dame, Ozanam e companheiros procuravam manter aceso o movimento de renovação do espírito cristão. Falaram-lhes da existência da “Sociedade dos Bons Estudos”, dirigida por eminente católico, Bailly de Surcy, que estava em decadência. Mas Bailly teve a idéia de realizar reuniões na redação do seu jornal “Tribuna Católica”, com conferências sobre literatura, história e filosofia, para elas convidando a juventude cristã.

Acontecia que a "Sociedade dos Bons Estudos" não atendia aos anseios de Ozanam, pois era um cenáculo fechado, embora admitindo alguns jovens católicos ou de certas inclinações políticas. Por sugestão. de Ozanam, Bailly transformou aquela sociedade num grupo aberto a quantos desejassem instruir-se nas variadas manifestações do pensamento contemporâneo, passando a chamar-se "Conferências de História". Em março de 1833, eram mais de 60, com liberdade ampla para tratar de qualquer assunto.

Vindo a participar das Conferências de História representantes e partidários de todas as opiniões e de várias religiões, os resultados das discussões tornaram-se contraproducentes, tanto mais que se multiplicavam os ataques ao Cristianismo, destacando-se Ozanam com respostas prontas, algumas pitorescas e espirituosas. Os católicos, com maiores conhecimentos religiosos e maior ardor de proselitismo, acabavam sempre vitoriosos, conquistando ainda a amizade dos adversários, pois não usavam expressões violentas.

Entre os que se alarmavam com os possíveis perigos dessa apologética juvenil, desamparada de uma direção religiosa competente, estava o velho, sábio e prudente jornalista Picot, redator do “Amigo da Religião” que disse ver nas discussões mais inconveniências que vantagens. Ozanam magoou-se com a observação, sobre- tudo procedendo de “pessoa venerável” , pois esperava apoio para aqueles jovens cheios de coragem na defesa da Santa Madre Igreja. Sua consciência, porém, ficou abalada, reclamando reexame.

Reunidos os mais decididos batalhadores em casa de Lamache, ficou acertado que se tomassem medidas para evitar surpresas prejudiciais à religião. Mas os receios persistiam, tendo Le Taillandier combinado com Lallier que suas reuniões se fizessem unicamente com jovens católicos, as quais sem controvérsias e disputas, apresentariam melhor meio de realizar boas obras. Como essa mudança de direção pudesse parecer capitulação, nada decidiram, concordando, porém, em estudar previamente as teses em discussão.

Fundação da primeira Conferência de Caridade


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As reuniões continuavam cada vez mais tumultuosas, com provocações dirigidas aos católicos e repelidas por Ozanam, que, no entanto, ficou muito chocado quando um estudante, destacando o ceticismo de Voltaire, declarara: “Vocês têm razão se ficarem no passado, quando o Cristianismo fez prodígios. Mas hoje ele está morto! E vocês, que se gabam do seu Catolicismo, que fazem agora? Cadê suas obras, as obras que provam sua fé e que nos poderiam convencer?”

As palavras do colega atingiram o coração de Ozanam, obrigando-o a concordar com ele, pois só se distinguiam dos camaradas incrédulos pelo palavreado pomposo. Mas, onde estavam as obras de caridade? Como traduzir em atos a fé que defendiam? E concluiu: “É preciso imitar Jesus Cristo quando pregava o Evangelho. Fundemos uma Conferência de Caridade. Vamos aos Pobres!” E começou levando, com Le Taillandier, a um pobre, as achas de lenha que iriam queimar no inverno.

Narrando este episódio; dizia Lamache que Ozanam, com olhar triste mas cintilante, e voz levemente trêmula, traduzia as profundas emoções da alma. Passando da palavra à ação, Ozanam, Lamache e Le Taillandier procuraram Bailly, a quem externaram seus intentos, recebendo apoio imediato, sugerindo, porém, que fossem consultar o Padre Olivier, pároco de Santo Estêvão. Este achou melhor, em vez de obras, realizar o ensino do Catecismo a crianças pobres. A solução não convinha.

Voltando a Bailly, os três moços explicaram que preferiam uma caridade manual, com visita aos pobres. A esposa de Bailly participava de uma “Sociedade de Boas Obras”, para ajudar indigentes. Mas entendia que aquilo era tarefa para moços. E foi lembrando djsso que Bailly, grande devoto de São Vicente de Paulo, se dispôs a colaborar na organização de uma sociedade para amparar famílias necessitadas. Era preciso, porém, saber que famílias seriam visitadas.

Admitida a idéia, resolveu-se dar à organização o nome de “Conferência de Caridade”, para distinguí-la da “Conferência de História”. Achou Bailly, entretanto, muito reduzido o número de quatro pessoas para as tarefas visadas. Ozanam indicou Clavé e Devaux, que aceitaram, subindo a sete os fundadores. Bailly ofereceu a redação da “Tribuna Católica” para sede, ficando assim organizada a obra que iria ver no pobre a pessoa de Cristo, segundo o Evangelho.

Não tendo havido cuidado em registrar o dia do nascimento da Conferência de Caridade, não há certeza sobre a data de sua fundação. Por outro lado, ninguém admitiu ser apresentado como principal fundador. Ozanam apontava ora Bailly, ora Le Taillandier como “o primeiro autor de nossa. Sociedade”, enquanto Lamache entendia que ninguém merecia este título. Após o falecimento de Ozanam membros da primeira Conferência de Paris apontaram-no como a alma do movimento.

Cinquenta anos depois, Lallier, Lamache, Le Taillandier e Devaux, ainda vivos, ofereceram um Depoimento sobre as Origens da Sociedade, apontando como seus fundadores Bailly (Manuel José), com 40 anos; Lamache (Paulo), 22 anos; Clavé (Félix), 22 anos; Le Taillandier (Augusto), 22 anos; Devaux (Júlio), 21 anos; Ozanam (Frederico), 20 anos; Lallier (Francisco), 19 anos. A parte Bailly, nenhum deles pertencia a qualquer associação religiosa ou política e eram estudantes de Direito, salvo Devaux, que cursava Medicina.

A Primeira Sessão

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Assentados os fundamentos da nova empresa, realizou-se imediatamente a primeira sessão, presidida por Bailly, provavelmente a 23 de abril de 1833, após invocação ao Espírito Santo, e leitura piedosa, extraída da “Imitação de Cristo”. Adotou-se, então, como obra fundamental a visita a famílias pobres nos domicílios, não devendo os socorros ser dados em dinheiro, mas em “vales” para desconto em determinados fornecedores. Esse plano vem sendo reproduzido até hoje, ainda que com modificações.

Aceito o programa estabelecido, cumpria encarar seu desempenho, a começar pelas reuniões e pela obtenção dos indispensáveis recursos. Estabeleceram-se sessões semanais, contribuindo cada membro com o que pudesse, sem que um soubesse a quantia dada pelo outro. Porque, afinal, o objetivo da obra, conforme Bailly, era menos de beneficência do que de moralização e de confraternização, tendo em vista os pobres e os que iam assistí-los. São Vicente de Paulo foi designado como protetor.


Apoio das Filhas da Caridade

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Estabelecido que os socorros às famílias assistidas seriam em “vales”, surgiram dois problemas: como escolher essas famílias e como organizar a respectiva assistência. Reconhecendo sua inexperiência no caso lembraram-se de recorrer à célebre Irmã Rosalie, Filha da Caridade, Congregação fundada por São Vicente de Paulo, e que presidia uma organização de assistência à pobreza no bairro de Mouffetard, podendo-se conseguir dela uma lista de famílias necessitando de receber auxílios.

Acontecia que Jules Devaux, aliás indicado Tesoureiro da nova obra, conhecia Irmã Rosalie, por ter sido representante da rua Epée-de-Bois junto à religiosa, cuja ação caritativa enchia toda Paris. Ela prodigalizou-lhe a melhor acolhida, encorajou a ação dos jovens, orientou-os, entregando-lhes uma lista de famílias a visitar, fornecendo também “vales” para carne e pão, visto que a Conferência ainda não emitira os seus.

As Primeiras Visitas

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Escolhidas as famílias a socorrer, cada “confrade”, pois foi esse o título que se deram, tratou de pôr mãos à obra. Era de ver o entusiasmo com que se entregaram à tarefa, descobrindo verdadeiro mundo novo de confraternização cristã. Em contato com o sofrimento e as misérias humanas, aqueles jovens passaram a compreender melhor o valor da caridade bem ordenada e as palavras de Cristo fazendo do amor ao próximo um Novo Mandamento.

A Ozanam coube assistir um caso de miséria moral acima da material: uma infeliz mulher se matava no trabalho para sustentar cinco filhos; seu companheiro, chegando em casa embriagado, tomava-lhe o dinheiro e ainda batia nela e nos meninos. Ozanam conseguiu separá-la, pois não eram casados, obteve meios para que ela voltasse ao interior com dois filhos, empregando os demais nas oficinas de Bailly. Era a assistência total, exemplo do futuro papel das Conferências.


Audiência com o Papa Gregório XVI

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Por iniciativa de seu pai, Ozanam passou as férias de 1833 na Itália, medida prejudicial aos intentos da família, que era vê-lo formado em Direito, enquanto a visita aos centros culturais italianos mais aumentaria no jovem a atração pela Literatura. O Papa Gregório XVI recebeu João Antonio Ozanam e os dois filhos em audiência particular, apresentados pelo Cardeal Fesch, Arcebispo de Milão. Ao regressar, Ozanam muito sofreu, impedido de seguir sua vocação.

Dedicação ao Curso de Direito em respeito aos Pais

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Voltando à França, os estudos de Direito o aguardavam, juntamente com os exames para licenciatura como advogado. Era um passo decisivo. Seu pai e sua mãe nem de longe queriam que ele se formasse em Letras, coisa sem futuro, diziam eles. Por isso o jovem reafirmou, em carta à mãe, juramento de fidelidade ao Curso Jurídico. Apenas pedia que permitissem a consolação de um pouco de literatura para, ao menos, adoçar as amarguras da jurisprudência.

Diante desse juramento, Ozanam empregava oito horas diárias, exceto aos domingos, no estudo do Direito. Ao mesmo tempo freqüentava cinco cursos da matéria, praticando ainda advocacia. Via nisso uma loucura, pois sua vontade era escrever sobre outras coisas que não assuntos forenses e não pensar em assuntos de cartório. Ainda dava graças a Deus por lhe permitirem, com a advocacia, praticar a oratória, o que lhe facilitava cultivar a literatura, "mãe da eloqüência".

Apesar de tudo, a escolha de uma carreira o torturava. Ainda chegou a pensar em acumular a advocacia com a literatura. Se pudesse preferir esta, faria o “apostolado das letras, pela pena e pelo ensino. Aliás, de toda parte vinham confirmações a favor das letras, como solicitações para artigos de jornais, reuniões intelectuais, conferências sobre literatura. Não seria tudo isso manifestação da vontade de Deus? Mas a decisão da família estava do outro lado.

Cresce a Conferência de Caridade

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Na Conferência de Caridade, pretendiam os fundadores mantê-la restrita entre eles, unidos pela amizade para a caridade. A admissão de estranhos poderia esfriar o ambiente e destruir a intimidade reinante. No entanto, havia fora alguns colegas vivendo a mesma fé, que podiam ajudar sendo ajudados. Entraram assim novos confrades -La Noue, Le Prevost, Hommais, Pessoneaux, Chaurand -subindo a 15 no verão e a 25 no outono de 1833, sendo 18 deles propostos por Ozanam.

A Sociedade alargava seus serviços aos pobres, atendidos tanto na miséria do sustento como na da alma. Semanalmente realizavam os confrades suas visitas, fazendo-se notados a ponto de organizações do Governo solicitarem-lhes a colaboração, assistindo jovens delinqüentes, prisioneiros; a própria Irmã Rosalie ia procurá-los para ensinar operários a escrever. Alegrava-os mais o apoio do Padre Fandet, seu vigário, a quem comunicavam seus trabalhos e que lhes trouxe os aplausos do Arcebispo.

Divisão da primeira Conferência de Caridade

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No dia 23 de abril de 1834 Ozanam atingia a maioridade. Encara os 21 anos com toda a seriedade, voltando seus pensamentos para Deus e para a morte –“esses dois companheiros que sempre nos acompanham”. Começava a obrigação de jejuar. Continuava a enfrentar as tentações do mundo e ainda mais as maldades dos colegas que o tachavam de carola. Via em tudo provações que deveria dominar para ser mais útil ao serviço de Deus.

Em novembro de 1834 chega Ozanam a Paris. Iria coroar com grau superior seus estudos jurídicos. Teria que enfrentar dura luta com estudos e trabalhos vicentinos, sem esquecer a Literatura. A divisão da Conferência, já tão numerosa, era, a seu ver, uma questão de sobrevivência daquela obra. Levar o Pe. Lacordaire ao púlpito de Notre Dame para instalar uma apologética consoante com a época, era outra meta a atingir. Ozanam enfrentaria tais obstáculos com pertinácia.

O número de confrades aumentava tanto que, em dezembro de 1834, era 100. Isto criava sérios inconvenientes, entre outros, o alongamento das sessões com os relatórios das visitas aos assistidos. Ozanam vinha insistindo, desde abril, na divisão da Conferência, sendo repelido por alguns que argumentavam a impossibilidade de Bailly presidir mais de uma sessão, o que faria perigar a novel sociedade. Na volta das férias, retomou o problema com decisão.

Como persistisse a oposição de alguns, inclusive de La Taillandier, que chorava ao pensar no caso, Bailly designou em 31 de dezembro uma comissão para tratar do assunto defendido por Ozanam. As divergências iam promovendo o tumulto, quando soou meia-noite. Bailly pediu que se abraçassem no novo ano, e confiassem a ele a decisão final. Todos concordaram mas só a 24 de fevereiro de 1835 Bailly procedeu à divisão da Conferência em duas secções.

Admitida a divisão, começaram a surgir novas Conferências, todas, porém, sob a presidência de Bailly, “o Pai Bailly”, guarda das tradições, mas tendo Ozanam como a alma daquela dispersão, acompanhando todo o movimento. Ele tinha em vista a santificação pessoal dos confrades e especialmente a preservação moral e religiosa da juventude acadêmica. Nesse sentido. pensava na melhor forma de levar Deus à inteligência e ao coração dos moços. A solução seria o Padre Lacordaire.

Divisão da primeira Conferência de Caridade

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No dia 23 de abril de 1834 Ozanam atingia a maioridade. Encara os 21 anos com toda a seriedade, voltando seus pensamentos para Deus e para a morte –“esses dois companheiros que sempre nos acompanham”. Começava a obrigação de jejuar. Continuava a enfrentar as tentações do mundo e ainda mais as maldades dos colegas que o tachavam de carola. Via em tudo provações que deveria dominar para ser mais útil ao serviço de Deus.

Em novembro de 1834 chega Ozanam a Paris. Iria coroar com grau superior seus estudos jurídicos. Teria que enfrentar dura luta com estudos e trabalhos vicentinos, sem esquecer a Literatura. A divisão da Conferência, já tão numerosa, era, a seu ver, uma questão de sobrevivência daquela obra. Levar o Pe. Lacordaire ao púlpito de Notre Dame para instalar uma apologética consoante com a época, era outra meta a atingir. Ozanam enfrentaria tais obstáculos com pertinácia.

O número de confrades aumentava tanto que, em dezembro de 1834, era 100. Isto criava sérios inconvenientes, entre outros, o alongamento das sessões com os relatórios das visitas aos assistidos. Ozanam vinha insistindo, desde abril, na divisão da Conferência, sendo repelido por alguns que argumentavam a impossibilidade de Bailly presidir mais de uma sessão, o que faria perigar a novel sociedade. Na volta das férias, retomou o problema com decisão.

Como persistisse a oposição de alguns, inclusive de La Taillandier, que chorava ao pensar no caso, Bailly designou em 31 de dezembro uma comissão para tratar do assunto defendido por Ozanam. As divergências iam promovendo o tumulto, quando soou meia-noite. Bailly pediu que se abraçassem no novo ano, e confiassem a ele a decisão final. Todos concordaram mas só a 24 de fevereiro de 1835 Bailly procedeu à divisão da Conferência em duas secções.

Admitida a divisão, começaram a surgir novas Conferências, todas, porém, sob a presidência de Bailly, “o Pai Bailly”, guarda das tradições, mas tendo Ozanam como a alma daquela dispersão, acompanhando todo o movimento. Ele tinha em vista a santificação pessoal dos confrades e especialmente a preservação moral e religiosa da juventude acadêmica. Nesse sentido. pensava na melhor forma de levar Deus à inteligência e ao coração dos moços. A solução seria o Padre Lacordaire.

Arcebispo finalmente permite a realização de conferências em Notre Dame

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As ocupações dos jovens estudantes na Conferência não os impediam de cuidar dos meios para formação cristã dos intelectuais, especialmente no combate ao ensino ateu na Sorbona. Voltaram, então, a insistir junto ao Arcebispo pela realização de conferências em Notre Dame, a cargo de Lacordaire. Embora preferindo outros, D. Quélen designou, afinal, este sacerdote. Assim, a 8 de março de 1835, Lacordaire obtinha retumbante êxito, atraindo uma grande multidão desejosa de conhecer as verdade eternas.

A insistência de Ozanam pela escolha de Lacordaire fundamentava-se nos insucessos de oradores precedentes naquele púlpito. E o Arcebispo, que tanto relutara ante seus apelos, vibrou de entusiasmo vendo o templo inteiramente lotado pela fina flor da intelectualidade francesa, chamando o ilustre sacerdote “consolação e alegria de seu coração” .Ozanam convidava colegas e professores, e, para lhes garantir lugares, chegava duas horas antes na igreja, a fim de reservá-los, agradando assim aos retraídos.

Primeiro Regulamento da Sociedade de São Vicente de Paulo

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As atividades da Conferência de Caridade estavam praticamente definidas. Sua expansão, porém, reclamava um elemento de orientação e vinculação. Resultou disso a aprovação de um Regulamento em 1835, no qua1, pela primeira vez, se estabeleceu a qualificação da obra como "Sociedade de São Vicente de Paulo". Sua elaboração coube a Ozanam e Lallier, tendo Bailly escrito o preâmbulo, denominado "Observações Preliminares", reproduzidas sempre em todas as edições, mesmo as publicadas em outras línguas.

Doutorado em Direito e a Primeira Conferência em Lião

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Embora obrigado a doutorar-se em Direito, para satisfação dos pais, Ozanam lançou-se na conquista da licenciatura em Letras e conseguiu em 2 de maio de 1835, "o bendito Diploma", caminho para o doutorado. Em 30 de abril de 1836 defendeu a tese para doutorado em Direito, conquistando seu diploma, com capacidade para incumbir-se do ensino superior. Pouco se alegrou com esse título, que via como "corda no pescoço" , conforme declarava aos amigos.

A família de Ozanam preparou-se para recebê-lo festivamente, oferecendo-lhe ótimas instalações para seu escritório de advocacia e ele mesmo não escondia sua alegria, máxime por poder dizer à sua mãe que ela o recebia intacto de coração e de inocência, como quando partira. Como para exercer a profissão precisava esperar quatro meses, Ozanam procurou fundar nesse interim, a primeira Conferência de Lião, contando com a colaboração de antigos companheiros de Paris.

Graças a Ozanam, auxiliado pelo Barão Chaurand, antigo confrade em Paris e grande fazendeiro, Lião teve a dita de ver funcionar a primeira Conferência fora de Paris, embora enfrentando grande oposição dos tradicionalistas, que usaram, na frase de Ozanam, "mesquinharias, aleivosias, vilanias, argúcias e minúcias, de que são capazes essas gentes". A tenacidade e o esforço de Ozanam e dos companheiros venceram as resistências, passando de cem os confrades, donde a necessidade de dividir aquela Conferência.

A Sociedade, em Lião, podia apresentar-se como modelo, tomando rumos pioneiros. Socorria cem famílias, dando-lhes assistência médica; atraía confrades e assistidos à prática dos Sacramentos; organizou círculos de estudos para militares, preparando-lhes uma biblioteca com uma escola, tendo confrades por professores; acertava reuniões domingueiras na igreja para preleções do Vigário. Essas atividades mereciam aprovação da autoridade eclesiástica e bênçãos do Arcebispo. E de tudo era enviado Relatório a Paris.

De Lião Ozanam acompanha os trabalhos da Sociedade em Paris

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Mesmo ausente, Ozanam acompanhava com solicitude as atividades das Conferências de Paris. Escrevendo a Lallier, colocava-lhe nos ombros a responsabilidade pelo funcionamento da sociedade: "Depois de Bailly, você é a alma da Sociedade. De você dependem a união, o vigor, e a duração da obra" .Recomenda a publicação da "Circular" para remessa aos confrades com o Relatório anual. Incita-o a assistir às reuniões dos Conselhos, não negligenciando na correspondência.

O que mais recomendava Ozanam aos confrades parisienses era a manutenção do espírito de humildade, virtude primeira, tão exigida por São Vicente de Paulo. Manda preferir a obscuridade à prosperidade, afastados o orgulho coletivo, louvores dos próprios atos, elogios descontrolados e sobretudo a publicidade "que seria nossa morte" .Destacava a necessidade de religar todas as Conferências entre elas, tendo Paris como centro, preparando, assim, o estabelecimento dos Conselhos Particulares e Centrais.

Ozanam perde seu pai

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Sem entusiasmo e sem alegria, prestou Ozanam juramento de advogado no Foro de Lião, em novembro de 1836. Seus primeiros contatos com alguns clientes foram desanimadores. Não tinha disposição para andar atrás de causas. Só se sentia bem defendendo o interesse dos pobres. Não com pactuava com certos arranjos que "degradavam a justiça", na qual ele queria ver "o último asilo moral, o último santuário da sociedade presente".Aquela forma de vida "irritava-o, deixava-o profundamente ulcerado".

Consciente de que não dava para as lides judiciárias, Ozanam começou a pensar na ocupação da cadeira de Direito Comercial, cuja criação vinha sendo reclamada pela Câmara de Comércio de Lião. Mas, para tanto, era indispensável muito trabalho junto ao Governo. Estando a solução final em Paris, para lá se dirigiu Ozanam em 1837, confiante no prestígio de Jean-Jacques, filho de Ampère. As coisas iam bem encaminhadas, quando recebeu catastrófica notícia: Seu pai agonizava.

De Paris a Lião gastou Ozanam três dias, não tendo alcançado o enterro de seu amado pai, falecido em 12 de março. Morreu no exercício da Caridade, quando, descendo uma velha escada, após socorrer um pobre, escorregou, fraturando o crânio. Apesar da velhice, mantinha essas escaladas, no que era também acompanhado às ocultas pela esposa. Apesar de se prometerem cessar tão arriscadas visitas, continuavam a fazê-las, muitas vezes um pilhando o outro na quebra da promessa feita.

A dor de Ozanam foi inconsolável. Escrevendo a Jean-Jacques Ampère, cujo eminente pai falecera há pouco, Ozanam enaltecia as superiores virtudes daquele que lhe formara o caráter e que "se não era ilustração de primeira ordem, pelos seus trabalhos e suas virtudes se fez estimado e amado de todos, no serviço dos quais morreu" . O pai de Ozanam era o apoio do edifício doméstico e sua morte significava o desmoronamento do lar.

Com a morte do genitor, Ozanam iria assumir a obrigação de manter a mãe viúva e continuar a educação do irmão caçula Carlos. O outro, padre Afonso, não lhe seria pesado. Apesar de bem situado na vida, o extinto pouco deixara, pois grande parte da clínica era gratuita, destinada aos pobres. Coube, assim, a Ozanam assumir todos os encargos da família, sem rendas suficientes, pois da advocacia, pouco lucrava.

Doutorado em Letras é nomeado Professor de Direito Comercial

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Entregue ao trabalho profissional, ocupado ainda com aulas particulares, Ozanam, apegado ao desejo de conseguir o Doutorado em Letras, não cessava de estudar, preparando duas teses, uma em latim sobre poetas da antiguidade e outra em francês sobre a Divina Comedia e a Filosofia de Dante. Para imprimi-las e defendê-las, viajou a Paris em dezembro de 1838, temeroso, pois deixava a mãe enferma. As teses de Ozanam "foram geradas e nutridas na dor".

Verdadeira multidão lotava o anfiteatro da Sorbona, quando, a 7 de janeiro de 1839, Ozanam defendeu suas teses. Velhos professores, sábios e eloqüentes, interrogavam o jovem examinando, que empolgou examinadores e assistentes, manifestando estes vivos aplausos. O Ministro da Instrução, Victor Cousin, não conteve seu entusiasmo, exclamando: "Senhor Ozanam, sua eloqüência nunca foi superada nesta faculdade". Este formidável êxito repercutiu em Lião, onde o Conselho Municipal o nomeou Professor de Direito Comercial.

A morte da mãe de Antônio Frederico Ozanam

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Estava Ozanam satisfeito com a nomeação. Via-se livre da advocacia, tinha boa renda, ficando ainda ao lado da mãe, sempre piorando. Por causa dela recusara ser professor de Filosofia em Orleans, cargo oferecido pelo Ministro Cousin. A satisfação durou pouco. Em 12 de outubro ela falecia, tendo-se, como o marido, devotado totalmente aos pobres. Ozanam chorou longamente aquele trespasse. Na sua dor, sentia-a presente, sorrindo-lhe de longe, como costumava ela fazer.

Apesar da realidade, queria continuar com os pais pelo pensamento, pela fé, pelas virtudes, sem qualquer alteração. sentindo a mãe ao seu lado, passava a chorar com mais força, embora inefável paz o invadisse nesses instantes de melancolia. "Quando faço algo pelos pobres, escrevia, que ela tanto amava; quando me entrego a Deus, a quem ela tanto servia; quando rezo, creio escutar sua oração, que acompanha a minha, como fazíamos juntos ao pé do Crucifixo".

Ainda vivendo sua mãe, mais ainda após sua morte, Ozanam andou cultivando veleidades pela vida sacerdotal, animado pelo Padre Lacordaire, ansioso para fazê-lo dominicano. Em fervorosa correspondência, o célebre frade manifestava "grande desejo de chamá-lo um dia meu irmão e meu pai". Coube ao Padre Noirot e" Montalembert dissuadi-lo desse intento, mostrando que ele não fora feito para a vida religiosa e afirmando que, como leigo, muito mais poderia fazer pela Igreja.

A divisão da primeira conferência produz os frutos previstos por Ozanam

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Entrementes, a Sociedade aumentava suas fileiras de modo surpreendente. Surgiam Conferências nas Escolas Normal e Politécnica, já subindo a 14 as existentes em Paris, com igual número nas Províncias e mais de mil confrades. Estudantes acorriam em bando, aos apelos dos colegas vicentinos, seguidos de nobres, deputados, generais, escritores distintos. Centenas aproximavam-se da Sagrada Comunhão. A divisão da primeira Conferência produzia os frutos previstos por Ozanam. Fora preciso dividir para crescer.

O amor a Sociedade faz Ozanam descartar a idéia da vida sacerdotal

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Em 16 de dezembro de 1839 Ozanam inaugurou suas aulas de Direito Comercial na Academia de Lião. Verdadeira multidão se comprimia na sala, chegando a forçar as portas e quebrar as vidraças. Era impressionante o acolhimento dado àquele moço de 26 anos, que conseguia entusiasmar o auditório com seu saber e sua eloqüência. Ozanam programou suas lições de modo prático, pois precisava aproveitar ao máximo o tempo dos ouvintes, para quem as horas valiam cifrões.

Meditando nas ponderações do Padre Noirot e de Montalambert, concluiu Ozanam que, além de razões particulares, justificava seu recuo nas pretensões de uma vida eclesiástica, ressaltando o compromisso indissolúvel selado com a Sociedade de São Vicente de Paulo. Era a ela que se devia dedicar , nela permanecendo para estendê-la no terreno secular, onde ela nascera: obra de apostolado, mas, sobretudo, de apostolado leigo, igualmente sagrado; abandoná-lo seria traição.

Ozanam pede Amélia Soulacroix em casamento

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Afastada a hipótese de seguir a carreira sacerdotal, a alternativa de Ozanam seria o casamento. Até então não pensara nele. Quando encarava o assunto era para deprecia-lo, vendo na vida conjugal "um egoísmo a dois, incompatível com o apostolado". Começava, porém, a sentir-se só, especialmente após o falecimento dos pais. Passou a idealizar uma companheira excelente e virtuosa. Padre Noirot julgou necessário ajudá-lo na escolha, optando pela filha do Reitor da Academia de Lião.

Era Amélia Soulacroix, filha de Jean- Baptiste Soulacroix, Reitor da Academia de Lião, casado com Célia Maganos, norte-americana. Decidiu o Padre Noirot aproximar Ozanam da jovem, combinando uma visita aos pais dela. Tudo acertado, convidou Ozanam a ir à casa do seu Diretor , no que foi atendido. Na entrada, encontraram "por acaso" , madame Soulacroix, a quem foi Ozanam apresentado como jovem professor de Direito. Recebido efusivamente pelo Reitor, com ele manteve cordial palestra.

Enquanto conversava com Soulacroix, observou Ozanam que no aposento vizinho uma encantadora moça cuidava com muito carinho de um rapazinho paralítico. Era Amélia e o irmão único. Toda entretida com o enfermo, ela não prestou atenção ao visitante. Ele, porém, enlevado pela cena, foi tomado de admiração e murmurou: "A amável irmã e o feliz irmão. Como ela o ama!" E seus olhos não se afastavam da moça. Indubitavelmente era amor à primeira vista.

Ozanam passou, então, a trazer no coração um sentimento novo. Ele amava Amélia, cujo nome correspondia à fineza dos traços e amabilidade do caráter; ela tinha tudo para agradar ao jovem professor que passou a freqüentar a família. E os dois jovens puderam conhecer-se mais profundamente. Meses depois, voltando triunfante, do concurso de Literatura na Sorbona, Ozanam pede Amélia em casamento. Soulacroix, tomando as mãos dos dois jovens entre as suas, consente generosamente.

Ozanam realiza o sonho de trabalhar com Letras, é nomeado professor de Literatura Alemã

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Ao mesmo tempo em que desenvolvia suas aulas, aproveitava Ozanam os assuntos para incursões no campo da religião, mostrando que o fundamento do Direito é a Lei Divina, e enquanto expunha os direitos dos empresários lhes apontava os deveres para com os trabalhadores. O Reitor da Academia procurando prendê-lo mais, conseguiu aumento substancial nos seus honorários. Além disso, propôs ao Ministro sua nomeação para Professor de Literatura Estrangeira na recém-criada Faculdade de letras.

O Ministro da Instrução condicionou a nomeação de Ozanam para a nova Cadeira à sua inscrição no concurso de Literatura a realizar-se na Sorbona. O Ministro queria atrair Ozanam a Paris, tão impressionado ficara com sua cultura. Já havia seis candidatos inscritos e preparados há mais de ano. Ozanam iria dispor apenas de seis meses para isso. Mas, desejando atender ao Ministro, concordou; embora tendo poucas esperanças de sair vencedor.

No preparo dos exames dificílimos, gastou Ozanam dias e noites, sabendo que ia enfrentar sérios concorrentes. Por isto, pouco esperava do concurso. O triunfo, porém, foi espetacular, embora Ozanam considerasse o resultado como "um jogo impertinente do acaso". Como sempre, Ozanam aproveitou os assuntos para reafirmar sua fé e mostrar o valor do pensamento católico no desenvolvimento do saber humano. Proclamado o resultado, um dos examinadores fez uma proposta a Ozanam.

O examinador pediu-lhe que o substituísse na Cadeira que lecionava naquela Faculdade. A partir desse momento. Ozanam pertencia às Letras e a Paris, porém, mais ainda a Deus, em quem pusera a sua confiança. Desejava regressar a Lião e estar com os irmãos e amigos. Mas precisava preparar-se para ocupar a Cadeira com um Curso de Literatura Alemã. Daí ter que viajar para a Alemanha a fim de organizar as lições com material colhido na fonte.

Após aprovação da noiva Amélia Ozanam decide retorna a Paris

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Ozanam voltou e sentia-se feliz e confiante especialmente naquela que chamava seu "anjo da guarda". Quem não gostava era o Padre Lacordaire, que o queria dominicano, e, por isso, viu no noivado "uma armadilha" supostamente atribuída ao Padre Noirot. Ozanam estava em ótima situação. Recebia 15 mil francos como Professor. Mas recebera convite para lecionar na Sorbona onde só ganharia 5 mil francos, como professor adjunto. Era preciso decidir: Lião, com conforto, ou Paris, com sacrifício.

A decisão impunha-se. Lião era a estabilidade financeira, o aconchego familiar, as amizades já estabelecidas, o respeito e a consideração da Sociedade; Paris oferecia apenas uma suplência de professor , honorários reduzidos, situação precária, vida apertada, desconforto. Consultou o futuro sogro. Este preferia Lião. Mas Paris era o teatro das grandes realizações cristãs, vasto campo da Caridade em ação, a restauração do valor da Igreja entre literatos e cientistas, obra para que era chamado por Deus.

Os argumentos de Ozanarn comoveram Soulacroix, ótimo cristão, que também via as vantagens para a Igreja numa ação decisiva nos meios universitários. Neste caso, perderia a filha. Pediu, então, a Ozanam que a consultasse. Caberia a Amélia a suprema decisão. Teria ela bastante confiança nela, nele e em Deus, para aceitar o sacrifício que Paris reclamaria? Colocando a mão na de Ozanam, ela disse: "Tenho confiança em você". A sorte estava lançada. Paris vencera.

De volta à Paris, de volta ao combate à irreligiosidade

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Paris tinha, agora, para Ozanam "gosto de exílio" .Além da ausência da noiva, encarava a perspectiva da estréia como Professor da Sorbona, onde estivera como aluno apenas há seis anos atrás. Hospedara-se em casa de Bailly, onde era tratado como filho. Enquanto não iniciava o Curso passava o tempo visitando amigos, escrevendo para importantes jornais e preparando a primeira aula com afinco. Dedicava-se também à Sociedade de São Vicente de Paulo.

Bailly queria aproveitá-lo para desenvolver maiores esforços na direção da obra, especialmente no funcionamento do Conselho Geral, onde Baudon, com seus 21 anos, substituía Lallier. Oitenta conferências floresciam em 48 cidades de 38 Dioceses, com as bênçãos da Santa Sé e o paternal apoio dos Bispos. Estabeleceram-se delimitações entre o Conselho Geral e os Particulares. E Ozanam, ante a desagregação de tantas coisas, destaca essas obras de Caridade; sobretudo o respeito à Religião.

Não é que tivessem arrefecido as investidas contra a Igreja. O sansimonismo voltara a ser ensinado no Colégio de França, professores anticatólicos recebiam medalhas e eram autorizados cursos populares para reanimar ódios desaparecidos. Ozanam, porém. retornara à luta, inquieto mas não desencorajado, e a Sorbona passou a ter um Curso de Catolicismo dentro de um Programa de História, convertendo mais descrentes do que numerosos sermões, como disse um dos ouvintes em carta ao jovem mestre.

A estréia como professor

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No dia 1º de janeiro de 1841 ocupou a cátedra de Literatura Estrangeira, na Sorbona, como suplente, um jovem professor de 28 anos, pálido e vacilante, defronte de uma platéia de estudantes, professores e amigos. Era a estréia de Ozanam. Começou claudicante, nervoso, temeroso. Mas inflamou-se, entusiasmou-se e, entre palmas, terminou abraçado pelos presentes, que o felicitavam pela aula magnífica. A noiva, de longe, participava do triunfo, por ela atribuído a muita oração.

Ozanam temia que o grande auditório da estréia ficasse reduzido no correr das aulas. Mas, durante todo o Curso, a assistência permaneceu fiel, superlotando o anfiteatro. Era fato realmente novo, que um rapaz de 28 anos ali estreasse como mestre e como mestre fosse ouvido. Os católicos vibravam. Os descrentes se sentiam dominados por aquela eloqüência. O Ministro o felicitava e grandes jornais mandavam estenografar as lições. Escrevendo à noiva, atribuía tanta glória a orações dela.

O casamento de Ozanam e Amélia

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Ozanam e Amélia uniram-se pelo matrimônio no dia 23 de julho de 1841, com o advento das férias na Sorbona. O noivo completara 28 anos e a noiva 21. O celebrante foi o irmão de Ozanam. Este, em carta a Lallier, narrou a cerimônia e seus sentimentos: "Eu sentia descer sobre mim as palavras consagradas". "Ao meu lado, uma jovem de branco, velada e piedosa como um anjo". Não se podia ser mais amoroso.

Após o casamento, a que assistiram numerosos vicentinos, teve início a lua de mel, através da. Itália. Ozanam declarava-se grandemente feliz, e dizia compreender o céu, acentuando: "Estou completamente iluminado de felicidade interior". Em Roma foi o casal recebido pelo Papa Gregório XVI, que os fez sentar junto a ele, dizendo: "Vocês são meus filhos, deixemos a etiqueta de lado e vamos conversar". Em dezembro o jovem par chegou a Paris, onde se instalou.

De volta da lua de mel Ozanam encanta mestres e alunos

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Retomando Ozanam, em janeiro de 1842, suas aulas na Sorbona, nas quais iria desenvolver quase toda a história da literatura, disso aproveitava-se para um reencontro do espírito filosófico com o espírito católico. Ele fazia de suas aulas uma "missão sagrada" e não dava início a elas sem ajoelhar-se e recorrer ao Espírito Santo. Os alunos ficavam vibrando com suas lições e o acompanhavam após as aulas num verdadeiro cortejo de aplausos.

Ozanam impunha-se uma aura de grandeza intelectual e moral. Freqüentavam suas aulas muitos professores, jornalistas e homens de letras. Diziam que "tinha o fogo sagrado". Sua convicção interior "convence e comove" .O célebre Renan afirmava: "Sempre saí de suas aulas mais forte e mais decidido a melhorar". E repetia mais tarde: "Como nós o amávamos!". Lamartine afirmava "haver em torno de Ozanam uma atmosfera de ternura pelos homens". "Era um apóstolo da Verdade".

Ao preferir ser professor substituto em Paris, desprezando segura situação confortável em Lião, Ozanam e esposa mantinham vida modesta. O diretor do célebre Colégio Stanislaw, Padre Graty, convidou-o para lecionar ali com boa remuneração. Sua passagem naquele colégio foi memorável. Dezoito meses durou seu curso, mas deixou tal impressão nos alunos que eles jamais esqueceram. Nunca um professor, na opinião deles, obteve tanta atenção, que significava caloroso aplauso. Ele espalhava simpatia e recebia simpatia.

Com sua eloqüencia Ozanam consegue várias conversões

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Faltava a Ozanam boa aparência pessoal. Um de seus alunos, Carô, mais tarde professor na Sorbona e membro da Academia Francesa, assim traçou seu retrato: "Ozanam não tinha a seu favor nem a beleza nem a elegância nem a graça. Baixote e desengonçado, apresentava fisionomia estranha, com sua miopia e cabelos despenteados. Mas ajuntava à sua expressão de bondade um sorriso espiritual. Era como se um raio da alma passasse por essa fisionomia".

Causava admiração o alto critério conquistado por aquele jovem de 28 anos, muito religioso. Lamartine destacava suas "afirmações inquebrantáveis". O fato é que ele dominava qualquer auditório. Prova desse domínio ocorreu numa aula de Lenormant, antigo descrente agora bom católico, chamado o "Convertido da Sorbona": Despeitados, antigos colegas de ateísmo prepararam com alguns alunos uma vaia, que começou a ser ensaiada. Ozanam, entrando na classe, conseguiu, só com sua presença, silenciar a turma.

Os homens de estudo que passaram a praticar a religião, formaram o "Circulo Católico", onde realizavam conferências sobre assuntos variados. Ozanam, convidado, aceitou presidir a Conferência de Literatura. Com seu ardor de sempre convidava os ouvintes a trabalhar pela ciência, "no fundo da qua1 se encontrava Deus. Deus quer que a procuremos para lhe provar", os o nosso.amor por ela. O caminho é difícil e longo. Alcançado o fim, a glória será da Providência".

Ozanam dita como se defender a fé de uma forma cristã

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Na Presidência da Conferência Literária do Círculo Católico, Ozanam pronunciou, perante o Arcebispo, D. Afre, e a pedido deste, uma conferência sobre "Deveres Literários do Cristão". Desencadeara-se uma luta na imprensa entre partidos políticos e grupos religiosos, com destempero de linguagem, em ambos os lados. Ozanam mostrou como deve o católico proceder nesses casos. O discurso teve imensa repercussão e provocou inesperada e violenta repulsa do jornal católico "Universo", o que muito contristou Ozanam.

Na sua investida contra Ozanam o jornal o acusava de fujão da luta católica. No entanto, Ozanam apenas apontava o Evangelho "como roteiro para a defesa da fé, no duplo amor da verdade e da caridade, da misericórdia e da paz. Devíamos lamentar, e não injuriar os incrédulos. E aos ateus, não mortificá-los mas tentar convencê-los. E à brutalidade de seus ataques responder com a lição de uma polêmica generosa". O Arcebispo apoiou e aplaudiu Ozanam.

Ozanam convoca a juventude aos retiros preparatórios de Comunhão Pascal

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Aproveitando o convívio que o Circuito Católico propiciava, Ozanam convocava a juventude para os retiros preparatórios da Comunhão Pascal, inaugurados em 1842, em Notre Dame, pelo Padre Ravignan, um grande orador. As pregações acorriam mais de seis mil homens, a maioria estudantes.

Após a comunhão cantavam um Te Deum, que emocionava todo mundo. Ozanam, tendo Cristo no coração, procurava os pobres de sua Conferência para visitar aqueles outros Cristos. Terminava assim sua ação de graças.

Assembléia Geral Regulamentar reúne confrades para examinar o bem realizado e o bem por fazer

Apesar das ocupações como Professor e Jornalista, Ozanam dedicava suas horas disponíveis à Sociedade de S. Vicente de Paulo, tendo nela incluído seu irmão Carlos.

Com grande alegria, participou em fevereiro de 1842 de uma das quatro assembléias gerais regulamentares. O salão não comportava os 600 confrades "reunidos para examinar o bem realizado e avaliar o bem por fazer". O Relatório lido anunciava a existência de 2.000 confrades em Paris e nas Províncias, assistindo 1.500 famílias.

"Uma só coisa nos poderá deter: a alteração do nosso espírito primitivo"

Noutra reunião, Ozanam encabeçava para a comunhão delegações de 25 Conferências de Paris. Os confrades receberam do Prefeito, ouvido o Arcebispo, 600 mil francos, enviados pelas Conferências de Lião para auxílio às famílias flageladas pelas enchentes.

O patriarca de Antióquia, que presidia a sessão, exclamou: "Eis a França tão caluniada! Eis sua mocidade tão desconhecida!" Falando aos confrades, Ozanam disse: "Uma só coisa nos poderá deter: a alteração do nosso espírito primitivo"

Ozanam conquista a cátedra efetiva na Sorbona


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Ozanam era apenas substituto do professor Fauriel. Falecido este, ficaria sem a cadeira. Precisava ser nomeado efetivo. Mas havia oposição dos adversários molestada com as suas magníficas afirmações de fé difundidas por ele em suas lições. E ainda se apegavam à sua juventude. Mas o renome adquirido pelo jovem professor consagrou-lhe a nomeação por decisão unânime do Conselho Universitário. E, assim, em novembro de 1844 ele conquistou a cátedra efetiva na Sorbona.

A vitória de Ozanam excitou a ala voltaireana da Sorbona, que procurava embaraçar-lhe as atividades universitárias já com picuinhas, já com indiretas à sua pessoa. Na entrada da sala de suas aulas colocaram os dizeres "Curso de Teologia". Ozanam respondeu sorrindo: "Eu não tenho a honra de ser teólogo, mas tenho a felicidade de ser cristão, com a ambição de pôr todas as minhas forças ao serviço da verdade". Aplausos reboaram por toda a sala.

O nascimento da filha torna a vida de Ozanam ainda mais feliz

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Adquirida a estabilidade profissional, assegurada uma situação econômica folgada, Ozanam consolidou a família em seu redor. Os dois irmãos passaram a residir com ele e até sua velha ama, Guigui, veio para sua companhia. Ele dizia ter transportado para Paris as paredes paternas com os móveis e tudo. Por fim também vieram sogro e cunhado. Ozanam, entretanto, ainda esperava alguém. Em agosto de 1845 sentia uma das maiores alegrias de sua vida: era Pai.

A disposição com que Ozanam recebeu a filha traduz bem seu procedimento de pai cristão: "Eu vi esta criaturinha, mas criatura imortal, posta por Deus em minhas mãos. Que trazia doçuras mas também obrigações. Distinguia nessa doce figura, plena de inocência, o selo sagrado do Criador. E compenetrava-me de que teria de prestar contas dessa alma imperecível, posta por Deus em minha vida, como um meio amável para me colocar no caminho do Céu".

Pai e mãe sorriam com os primeiros sorrisos da criança e com impaciência aguardavam seu batismo. Recebeu o nome de Maria, em lembrança da avó e "gratidão à celeste patrona" a quem atribuía o nascimento. O padrinho foi Lallier. Ozanam via na filha um presente do Céu para fazer os pais melhores. Com o tempo dizia nada haver de mais doce do que, chegando em casa encontrar a amada esposa com a filhinha nos braços.

Foram dos mais felizes os anos de 1844 a 1846, decorridos na paz da família e nas ocupações dos estudos. No lar, Ozanam procedia como esposo amante e pai carinhoso. Na sobriedade de sua mesa não faltava aos domingos um prato saboroso. Todos os meses, na data do casamento, oferecia um presente à esposa. E Amélia executava ao piano os grandes mestres que ele muito apreciava. Em 1846 foi nomeado Cavaleiro da Legião de Honra.

Ozanam recusa o cargo de vice-presidente do Conselho Geral

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Nem o lar nem as aulas afastavam-no da Sociedade de São Vicente de Paulo. Bailly deixara a Presidência para evitar perpetuidade. Após oito dias de orações ao Espírito Santo, o Conselho Geral deveria escolher o sucessor.

Elegeram Ozanam, então Vice-Presidente. Ele recusou, indicando Gossin, Conselheiro do Tribunal Real e Presidente da Conferência de S. Sulpício, que lhe pediu continuasse na Vice-Presidência. Concordou. Preferiu o trabalho obscuro, num devotamento contínuo aos interesses da sua "querida Sociedade".

Ozanam fica enfermo e sofre por não poder visitar os pobres

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A resistência física de Ozanam chegara ao máximo. Suas forças não suportaram o excesso de trabalho. Em agosto de 1846 caiu gravemente doente. Uma febre perniciosa o prostrou com perigo de vida. E, como ele mesmo afirmaria depois, não fossem os cuidados do Dr. Gourand e a ternura inteligente e corajosa de Amélia, poderia ter morrido. Após um mês de convalescença não conseguia nem levantar-se. A fraqueza era total. Trabalhar era mesmo impossível.

Apesar de todos os esforços médicos a doença persistia indomável. Tentaram passeios no campo, em vão. Sofria mais por não poder visitar seus pobres, e, para consolar-se, mandava distribuir pão aos que lhe batiam à porta. Também não podia prosseguir nas aulas. Os médicos determinaram um ano de repouso absoluto. O Ministro da Instrução, seu admirador, incumbiu-o de estudos e pesquisas históricas na Itália. Desejava, porém, é que ele se tratasse. Ozanam aceitaria isso?

A recuperação de Ozanam e seu encontro com o papa Pio IX

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Felizmente a mudança de ares foi o melhor remédio e Ozanam pôde, sem constrangimento, desempenhar a comissão estipulada pelo Ministro. Sentia-se renascer gozando a viagem e freqüentando os museus e arquivos históricos tendo ainda a alegrar-lhe a existência a companhia da esposa extremecida e da filhinha querida. Ele iria empolgar-se com a agitação que invadira a Itália e o arrastaria para a luta noutros importantes setores dos sofrimentos humanos.

Chegando a Roma, Ozanam procurou em primeiro lugar ver o Papa Pio IX, eleito em junho de 1846. E ficou deslumbrado com as manifestações que lhe prestava o povo, que, apinhado aos milhares, o aclamava e dele recebia em pessoa a comunhão. Com lágrimas nos olhos, contemplava aquela figura "tão doce, tão santa", exprimindo tanta caridade. E dizia para si que "era conquistando corações que o Papa conquistaria todos para Igreja".

O Santo Padre recebeu Ozanam em audiência particular, que ele assim descreve: "Sua Santidade fez minha mulher sentar-se e abençoou minha filhinha de dezoito meses que, ajoelhada, olhava para ele. O Santo Padre falou da França, da juventude, das escolas, com muita emoção". "Disse que conhecia a Sociedade de São Vicente de Paulo e as boas obras que sua juventude praticava com as visitas aos pobres e doentes, concluindo: Nossa esperança está nessa mocidade".

Em agosto de 1847, Ozanam regressou recuperado, mas empolgado pelos novos rumos que Pio IX dera ao seu governo espiritual e ao seu reinado temporal. O Papa provocara revolução política nos Estados Pontifícios. Concedera anistia, determinara a revisão das leis vigentes, criara o Conselho de Estado e estabelecera uma representação comunal. Ozanam presenciara a "marcha triunfal" da multidão, dando vivas a Pio IX. Desde então quis defender também as necessidades políticas e sociais do povo.

Ozanam volta às aulas na Sorbona

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Em dezembro, após um ano de ausência voltou Ozanam às aulas, na Sorbona. Deveria apreciar o "Purgatório", de Dante, poeta do Cristianismo e da liberdade na Itália. O assunto prestava-se a aplicar, na exposição, o que ele apreciara na Cidade Eterna, nas manifestações populares a Pio IX. E ele dizia ter visto o começo de uma Nova Era, "a sociedade abraçando a liberdade, só possível abençoada pelo Cristianismo". Ozanam firmava suas convicções sobre Doutrina Social.

Ele estava dominado pela necessidade da mudança do sistema político reinante na Europa, e por isso louvava Pio IX, por "se ter passado aos bárbaros" repetindo o gesto dos grandes Papas da Idade Média, apoiando os chamados "bárbaros" contra os prepotentes senhores feudais. Assim a Igreja salvou toda a Europa. Agora, as massas populares - os bárbaros de hoje - querem participar do Governo. Foi o que fez Pio IX, abrindo ao povo o lugar no poder.

Certos meios católicos não aprovaram as atitudes de Ozanam "exagerando os erros dos conservadores e atenuando os dos revolucionários". Nesse ínterim, rebentou a revolução republicana na França, com seu cortejo de desordens e destruição. Embora declarando-se contrário à violência e ao saque, Ozanam via no movimento um passo para a Democracia, com muita possibilidade para o reconhecimento dos direitos da Igreja, desde que não se condenasse a vontade do povo, desejoso de liberdade.

Defendensor da democracia e dos direitos trabalhistas

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Nas épocas de agitação entre os homens, Deus suscita iluminados que apontam meios para uma reforma de costumes. Ozanam foi designado pela Providência para advertir transviados e ajudar os necessitados de amparo. Como acontece com todos os profetas, não foi compreendido. Quando ele afirmava que, além da esmola, obrigação de todos, o povo precisava de instituições que o tornassem melhor, o que se conseguiria com a introdução da democracia, muitos viam nele um agitador.

O pensamento de Ozanam, exposto em seus escritos, convence que ele, possuía a visão do futuro. Antevia os acontecimentos. "Hão de surgir novos céus e novas terras" e "diante da realidade, o primeiro dever do cristão é não atemorizar-se, e, o segundo, não atemorizar os outros. Perante as crises políticas e acima delas está a Providência". "Aprendi da História que a Democracia é o termo natural do progresso político, deixando assegurada a liberdade da Igreja".

A presença de Ozanam junto às classes desprotegidas nele desenvolvia elevado senso social. E do apostolado da Caridade ao apostolado social não houve quase intervalo. Como Professor de Direito Comercial penetrou fundo no problema da vida operária, apontando soluções depois aproveitadas na encíclica RERUM NOVARUM, de Leão XIII. Foi ele que esclareceu o "justo salário", afirmando haver exploração quando a retribuição real do assalariado é inferior às suas necessidades normais.

Ozanam já afirmava em 1836, que "a questão que divide os homens é uma questão social, restando saber se a sociedade será a exploração em proveito dos fortes ou uma consagração para amparar os fracos. Há os que possuem demais e os que nada possuem. Estes acabarão tomando aquilo que lhes estão negando. Uma terrível luta se prepara entre essas duas classes: de um lado o poder da riqueza, do outro o poder do desespero".

Momentos turbulentos na Europa

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A humanidade vivia angustiada. Revoluções políticas, desordens sociais, lutas de classes levaram à anarquia vários países. Ozanam convocava os cristãos para se colocarem entre os dois campos em luta, campos por ele apontados desde 1836. Os católicos não lhe deram ouvidos. Preferiram permanecer insensíveis, esquecendo os oprimidos. E o resultado foi o Manifesto Comunista de Karl Marx, lançado em fevereiro de 1848. Não quiseram ouvir o arauto da Igreja, iriam sofrer os golpes dos comunistas.

Com a revolução republicana de 1848, viram-se os vicentinos envolvidos na luta sangrenta, procurando defender a Democracia nascente, que estava sendo ameaçada pelos aproveitadores da situação, desejosos de transformar o movimento em intentona comunista. Ozanam, que sempre defendera os operários, explorados pela burguesia capitalista, procurou colocar-se entre os dois campos, como ele sempre aconselhara, a fim de afastar o perigo vermelho e atrair os transviados para o bom caminho.

Novo presidente do Conselho Geral é ferido gravemente em combate

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A direção da Sociedade de São Vicente de Paulo acabara de receber novo Presidente Geral. Gossin renunciara o cargo por motivo de doença grave, sendo eleito em 14 de fevereiro de 1848 o confrade Adolpho Baudon, de 28 anos, "jovem, ativo, dedicado às obras". Para defender a Democracia, sob os ataques dos vermelhos, Baudon alistou-se na Guarda Nacional, o que também fez Ozanam; enquanto combatia bravamente numa posição avançada, Baudon foi gravemente ferido na perna.

A participação dos vicentinos na refrega sangrenta justificava-se pelo desejo de atrair para a Igreja as simpatias dos republicanos. Isso foi alcançado, com a posterior revogação de todas as leis que entravavam as atividades religiosas. Mas custou o sacrifício de muitas vidas de vicentinos, a invalidez de Baudon, que ficou coxo, e, pior de tudo, a morte do grande Arcebispo D. Affre, ferido a bala, enquanto, tentava a pacificação entre os combatentes.

A morte de Dom Affre trouxe paz aos franceses


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Quando maior era a luta nas ruas de Paris, resolveu Ozanam pedir a intervenção do Arcebispo, D. Affre, como pacificador. Este aceitou prontamente, apesar dos perigos da empresa.

Ozanam quis acompanhá-lo, mas ele o dissuadiu, pois estaya fardado. Antecedido de um vicentino, com a bandeira branca, o Arcebispo foi bem recebido pelos rebeldes. E já se tinha por conseguida a paz, quando um tiro, vindo de longe, o feriu de morte.

Todos lamentavam e condenavam a dolorosa ocorrência, fruto de inominável traição. O Arcebispo enfrentou o desastre com santa calma, dizendo que o Pastor dava a vida pelas suas ovelhas, e esperava que o seu sangue fosse o último a ser derramado.

Faleceu assistido pelo jovem Carlos, médico, irmão de Ozanam. Os vicentinos choraram a morte do Arcebispo, seu grande amigo e protetor. Como ele previra, o sacrifício de sua vida trouxe a paz aos franceses.

Ozanam, vice-presidente do Conselho Geral, faz circular o Boletim da Sociedade

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O grave ferimento sofrido por Baudon quase que o fez perder a perna que ele, apesar de horríveis sofrimentos, não permitiu amputassem. Levou, seis meses para relativo estabelecimento, ficando aleijado e suportando padecimentos intermitentes. As sessões do Conselho Geral realizavam-se na residência dele.

Enquanto isso, Ozanam, Vice-Presidente, assumia todos os encargos exteriores fazendo circular, pela primeira vez, em 15 de julho de 1848, o BOLETIM da Sociedade, até agora espalhado pelo mundo inteiro.

A luta contra a cólera abre portas para a religião


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A bravura cristã dos vicentinos durante a epidemia de cólera foi espetacular. Como disse Ozanam, eles enfrentaram "um povo dizimado, uma administração desorganizada, uma ciência apavorada. No entanto, com grande sabedoria, sem comparar sua fraqueza à grandeza do perigo e das necessidades, colocados à disposição das Irmãs de Caridade e das ambulâncias médicas, cuidaram de mais de dois mil doentes em dois meses, três quartos dos quais escaparam; os que morreram receberam os sacramentos da Igreja".

Passada a tormenta, milhares de famílias recobravam seus entes queridos curados, externando sua admiração e reconhecimento por aqueles jovens vicentinos, que, contrariando seus parentes, tudo deixavam para cuidar dos pestosos. E não ficou só nisso a caridade vicentina: ofereceu e conseguiu lares para milhares de órfãos, cujos pais a peste havia tragado. E o melhor é que a fé renascia sob o manto da Caridade, e a Religião via abertas portas antes fechadas.

Ozanam desenvolve publicações para formação social e religiosa

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No turbilhão de todos aqueles acontecimentos, Ozanam ainda achava tempo para trabalhar no campo da imprensa, fazenda circular em 15 de abril de 1848, o jornal ERA NOVA, secundado pelos padres Lacordaire e Maret. Propunha-se defender a Religião, a República nascente e a Liberdade. E afirmava que "não havendo mais o constrangimento das trincheiras nas ruas, iria apresentar verdades que deixaram de ser perigosas quando antes eram utilizadas apenas pelos maus, para enfeitar seus fuzis nas barricadas".

O ano de 1848 exigira de Ozanam trabalhos os mais árduos, tanto no campo material como no intelectual. Dirigindo as atividades da Sociedade de São Vicente de Paulo, enfrentara a assistência a 200 mil desempregados, aos famintos, aos pestosos. Desenvolvia publicações populares para formação social e religiosa e se esforçava para multiplicar conferências tanto na França como no estrangeiro. A ERA NOVA tomava "todo o tempo que sobrava dos exames". Ozanam não desperdiçava tempo.

O Partido da Confiança

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A pretensão de Ozanam era assegurar "à Igreja lugar no triunfo da Democracia, chegando mesmo a criar um movimento chamado Partido da Confiança. Como tal pretensão seria mais acessível com representantes na Assembléia, o nome de Ozanam foi lembrado. Ele recusou, alegando não ser homem de ação nem de comícios.

Mas, de Lião, veio um apelo patético, e Ozanam acabou aquiescendo. Isto nas vésperas do pleito, obtendo ainda 16 mil votos, insuficientes, porém, para eleger-se.

Ozanam encerra as atividades do Jornal Era Nova

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Era infalível que as diretrizes apontadas na ERA NOVA descontentariam muitos católicos. O revide partiu do órgão católico UNIVERSO, dirigido pelo eminente batalhador, mas ferrenho tradicionalista Luis Veillot, acusando Ozanam de tomar falsos rumos. Chamava a ERA NOVA de "Erro Novo".

Com seu jornal, abençoado, aliás pelo Arcebispo, Ozanam desejava apenas unir os católicos. Daí preferiu fechar a folha. em abril de 1849, declarando: "entre cristãos o mais prudente é não odiar por questões tão controvertidas".

Papa Pio X elogia Ozanam

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Os artigos de Ozanam não eram políticos, mas sociais. Sustentava depender a salvação da Sociedade cristã, da caridade dos católicos, apontando a Sociedade de São Vicente de Paulo como designada por Deus para isso.

Pleiteava uma agitação caridosa para aliviar a angústia do povo. A revolta fora esmagada mas restava um inimigo que queriam ignorar: a miséria. Mais tarde, Pio X apontava Ozanam como mestre e chefe daqueles que procurassem dar uma disciplina cristã à Sociedade.

Continuando suas aulas na Sorbona, Ozanam aproveitava os temas do programa para destacar o papel da Igreja na educação das massas indisciplinadas da Idade Média. Demonstrava que só se civilizam os homens agindo sobre suas consciências e que a primeira vitória tem que ser sobre suas paixões.

Dentro dessa conceituação escreveu obras como a Civilização do Século V. Os Germanos antes do Cristianismo, A Civilização Cristã entre os Francos e Bens da Igreja.

Ozanam volta a ficar doente

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A nefrite que o atacara em 1846 voltara a manifestar-se em 1849. Os sofrimentos aumentavam e ante os sintomas alarmantes da enfermidade, os médicos prescreveram-lhe repouso absoluto. O trabalho, as lutas, os sofrimentos morais apressavam sua ruína. Uma viagem à Bretanha concorreu para uma aparente melhora. Ele dizia que Amélia se alegrava por ver voltarem ao seu rosto as cores da saúde. E tentou trabalhar.

Escrevendo ao seu grande amigo Jean Jacques Ampère, companheiro desde a juventude, Ozanam dizia-lhe "estar de tal modo fatigado que ficava impedido de cumprir seus deveres e até alguma distração". "Com as doçuras do lar, Deus me concedeu falta de saúde. Que Ele seja bendito com essa partilha". Por isso o mesmo Ampère declarou: "O que Ozanam colocou acima de tudo foi a sua grande fé católica, a soberana senhora de toda sua vida".

Ozanam era homem de oração. Todos os seus atos e escritos respiram este incenso. A comunhão freqüente era o apoio de sua vida espiritual, e, sobre ela, assim se manifestava: "Quando a terra inteira vier a abjurar o Cristo, haverá sempre, na doçura da Comunhão e no consolo que ela oferece, uma força de convicção que me fará abraçar a Cruz e desafiar a incredulidade da terra". Em tudo ele via a vontade de Deus.

O devotamento de Ozanam aos pobres era impressionante. A Sociedade de São Vicente de Paulo constituía sua outra família. A visita aos pobres de sua Conferência e os serviços que lhes prestava eram para ele um exercício religioso. Sentia consolação em penetrar nas miseráveis moradias dos assistidos, cumprimentando-os afetuosamente, dizendo "sou um seu criado". Nessas visitas encontrava conforto para suas preocupações e coragem para seus empreendimentos. E, por isso, mais os amava.

A Sociedade se dissemina pelo mundo

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A Sociedade de São Vicente de Paulo cada vez mais se disseminava pelo mundo. O Presidente Baudon retomava aos poucos a direção geral, o que fazia Ozanam ir-se afastando gradativamente. E, 1851 registraram-se 247 agregações de novas conferências na Europa e América.

E o Relatório do ano, comentando a inauguração do Telégrafo Submarino, dizia que a Caridade era um fio muito mais elétrico que estava ligando os dois mundos.

A Sociedade se dissemina pelo mundo

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A Sociedade de São Vicente de Paulo cada vez mais se disseminava pelo mundo. O Presidente Baudon retomava aos poucos a direção geral, o que fazia Ozanam ir-se afastando gradativamente. E, 1851 registraram-se 247 agregações de novas conferências na Europa e América.

E o Relatório do ano, comentando a inauguração do Telégrafo Submarino, dizia que a Caridade era um fio muito mais elétrico que estava ligando os dois mundos.

Seguindo conselho médico Ozanam viaja para o Sul

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Os dias de moléstia que se seguiram não o afastaram do apostolado religioso, datando dessa época o começo da conversão de um amigo. Este objetava que a eternidade das penas do inferno contrariava a bondade de Deus. Ozanam esclarecia: "Pensais, meu amigo, que aqueles que duvidam do dogma do inferno, assim o fazem por sentimento humanitário? Não. É porque não possuem o sentimento bastante vivo do horror ao pecado e da justiça de Deus".

A conselho médico, Ozanam devia abandonar Paris e empreender uma viagem pelo Sul, percorrendo a Espanha e a Itália. Para Ozanam, seu afastamento das aulas na Sorbona, seu afastamento do campo de ação do apostolado cristão, onde deixava os discípulos, os amigos e, principalmente, os seus pobres, representava uma dolorosa situação. Por quanto tempo se afastaria? Quem sabe? Talvez para sempre ... Era preciso saber oferecer aquele sacrifício, ao abandonar tudo que fora a sua vida.

Escrevia então Ozanam: "Quem morre sem acabar a sua tarefa tem, aos olhos da Suprema Justiça, o mesmo mérito de quem pôde acabá-la completamente. Os maiores homens não são os que pretenderam estabelecer o plano do seu destino mas os que sempre se deixaram guiar por Deus" . Ozanam curvava-se com docilidade aos desígnios da Providência Divina. A viagem que ele empreenderia agora seria a última. Ele o sabia. Antes de partir quis comungar.

Amélia acompanhou como sempre o marido e na igreja colocou-se, ajoelhada atrás dele, coberta de lágrimas. Todo seu valor e resistência, até então demonstrados, desapareceram. E rezava, pedindo a Deus que não o tirasse. Nesse instante, teve como que uma visão, olhando para a parede da capela, onde aparecia uma inscrição: "Aqui jaz Frederico Ozanam" Era, talvez, o anúncio fatal de uma desgraça bem próxima. Em 16 de julho de 1852 eles deixaram Paris.

O turismo religioso de Ozanam

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Peregrinando pelo Sul da França, ia também visitando as conferências vicentinas. Sentia-se bem naquele meio. Durante as visitas, animava e exortava. Em Eaux-Bonnes, surgiu, nos poucos dias de sua permanência, um centro de irradiação da caridade evangélica.
Em Biarritz, sentiu melhorar um pouco sua abalada saúde. Desejou visitar a Espanha e rever São Tiago de Compostela, outrora meta dos peregrinos italianos e franceses. Foi uma viagem penosa, a exemplo dos cristãos dos tempos passados.

Burgos também o atraiu com seu belo templo dedicado a Maria Santíssima. Ao entrar naquela igreja majestosa, suplicou: "Nossa Senhora, Virgem Poderosa, que aqui tendes um edifício tão belo, fortalecei o edifício frágil e destroçado do meu corpo. Fazei que chegue até o céu o edifício espiritual de minha alma". Transpondo os Pirineus, tornou a pisar o solo francês. Como se aproximasse o inverno, decidiu passá-lo em Pisa, na Itália, cujo clima era salutar.

Ozanam consegue autorização para funcionamento das conferências de Pisa, Florença e Livorno

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Parecia que Ozanam desejava encher-se das últimas consolações e propagar ao máximo o ideal da Obra Vicentina. Na Toscana, por exemplo, as conferências não obtiveram ainda a autorização do Grão Duque para funcionar. Este temia que se tratasse de mais uma associação de políticos. Ozanam chegava, pois, a tempo para dissipar os mal-entendidos. Sabendo que se encontrava em Pisa a Grã-Duquesa, decidiu ele visitá-la para esclarecer as finalidades das Conferências Vicentinas.

Os amigos tentaram dissuadi-lo, aconselhando que, ao menos, deixasse passar a febre. Ozanam ponderou: "Estou mesmo mal. Mas enfim, é o último serviço que posso prestar à Sociedade de São Vicente de Paulo. Foram tantos e tais os benefícios que dela tenho recebido que não posso deixar de dar-lhe o meu último sacrifício, se Deus me der forças". A Grã-Duquesa o recebeu com toda a afabilidade, pois já o conhecia como autor consagrado.

Não ocultou a Ozanam as prevenções do Grão-Duque contra as Conferências e, de modo particular, a de Florença. Ozanam retrucou respeitosamente, mostrando como nada havia de política na , Obra Vicentina mas tão-somente a caridade operosa ditada pelo Evangelho. A Grã Duquesa não deixou transpirar qualquer sinal de aprovação, limitando-se a ouvir. Entretanto, dias depois, as Conferências de Pisa, Florença e Livorno recebiam a autorização do Grão-Duque para funcionarem, pela influência de Ozanam.

Ozanam visita a conferência de Florença

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Uma visita a Florença era para aquele abençoado peregrino muito oportuna e até necessária. O último resultado das negociações junto à Grã-Duquesa em favor das conferências, tornaram Ozanam ainda mais estimado entre os católicos daquela cidade.

Convidado a comparecer a uma reunião da conferência, lá fez uso da palavra, em língua italiana. Seu discurso causou a melhor impressão, a ponto de ser reproduzido nos jornais católicos da cidade. Ozanam irritou-se com aquela divulgação.

A Oração do Abandono

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Havia comparecido à reunião com a alma comovida, a ponto de externar a Lallier: "As línguas são diferentes, mas é sempre o mesmo aperto de mãos, a mesma cordialidade fraternal; podemos nos reconhecer pelo mesmo sinal com que distinguiam os cristãos nos primeiros tempos da Igreja: Vejam como eles se amam!". Entretanto, combatia a notícia espalhafatosa: "É inteiramente oposta ao espírito e aos costumes da Sociedade. A conferência fará maior bem quanto menor for o ruído".

O ano de 1853 encontrou Ozanam em Pisa, cuja placidez repousante deu-lhe um período de tranqüilidade. Na primavera instalou-se em São Jacó, perto de Antignano e de Livorno. Ao lado de sua esposa e de sua filha, escrevia a sua obra derradeira: "Peregrinação ao País do Cid". A 23 de abril compôs a bela oração do abandono, uma súplica de quem não desejava morrer mas aceitava plenamente a suprema vontade de Deus:

"Será necessário, Senhor, que eu renuncie a todos os bens que me dispensastes. Não quereis que eu Vos dê somente uma parte do sacrifício? Qual das minhas afeições desregradas desejas que eu imole? Não aceitaríeis o holocausto do meu amor próprio literário, das minhas ambições acadêmicas, dos meus projetos de estudo, onde ressalta mais orgulho que zelo pela verdade? Se eu vendesse metade dos meus livros e desse o preço aos pobres..."

"... Se, limitando o meu trabalho, eu consagrasse o resto da minha vida a visitar os indigentes, a instruir os ignorantes, ficaríeis satisfeito, Senhor, e me concederíeis a doçura de envelhecer junto à minha esposa e de completar a educação da minha filha?". "Talvez, oh meu Deus, não queirais nada disso. Vós não aceitaríeis a minha oferta egoísta, o meu holocausto e o meu sacrifício. É a mim que quereis. Eu vou, oh Senhor!"

O testamento de Ozanam

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A convicção da morte próxima, obrigava-o a pensar no seu testamento que foi redigido naquela mesma data. É sóbrio e muito eloqüente. Julgando-se grande pecador, começava por entregar sua alma à misericórdia infinita de Deus. À Amélia, sua doce esposa, deixava um curto adeus, marcando encontro no reino do céu. À Maria, sua filha adorada, deixava a bênção dos Patriarcas, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo...

Continuando pedia perdão pelas faltas com que, por infelicidade, houvesse magoado parentes e amigos. Finalmente, suplicava aos membros da Sociedade de São Vicente de Paulo que rezassem por sua alma. Dizia Ozanam: "Não vos deixeis iludir pelos confrades que vos disserem: ele já está no céu. Orai muito por aquele que tanto vos ama, mas que tanto tem pecado. Confiado nesta certeza, deixarei a terra com menores receios". Ozanam não alimentava mais ilusões de cura.

O amolador de foices dedicado aos pobres entusiasma Ozanam

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O verão levou Ozanam a Livorno, onde teve a feliz oportunidade de visitar a conferência local que funcionava há dois anos. Gracejava, chamando a peregrinação pelas obras vicentinas de "visita pastoral".

De fato, por onde passava, ensinava, exortava e animava. Nem todas as conferências eram compostas de doutos e literatos. Uma delas, em Pontedera, era presidida por um amolador de foices. Aquele homem rude, mas dedicado aos pobres, entusiasmou Ozanam.

Dele dizia: "É o presidente mais hábil e interessante que já conheci. Em poucas palavras inteirou-me da situação de sua conferência, descreveu-me as obras realizadas e as dificuldades vencidas, com tanta singeleza e propriedade de expressão que me fascinou o espírito, enquanto seu sotaque florentino me afagava docemente os ouvidos".

Ozanam insiste e consegue a fundação de duas conferências em Siena

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Ozanam ficou acabrunhado ao saber que não havia conferência em Siena. Escreveu ao Pe. Pendola, professor da universidade local.

Na carta pedia insistentemente que atraísse os jovens universitários ao ideal vicentino. A resposta demorava e Ozanam insistia. Quinze dias passaram-se sem resultado. Ozanam lamentava-se: "Deus não abençoa mais os meus esforços. Será que Ele já não me quer no seu serviço?"

Nova carta de Ozanam ao Pe. Pendola. Poucos dias depois chegava a Livorno a resposta esperada: "Meu caro amigo. Acabo de fundar duas conferências. Uma no meu colégio e outra na cidade."

O estado de Ozanam se agrava a cada dia que passa

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Os dias do enfermo tornaram-se inalterados. Pela manhã assistia à Missa; depois ficava na varanda, olhando o mar e lendo a Bíblia. Tendo Amélia perguntado qual o maior dom de Deus, ele respondeu: "Paz no coração. Com ela se enfrentam todos os males, mesmo a aproximação da morte." Falava muito de seus pecados, donde perguntarem se julgava-se grande pecador , ao que respondia: "Não conhecemos realmente a santidade de Deus..."

A marcha da doença oferecia altos e baixos. Mas o estado do enfermo tendia sempre a agravar-se. Seus dois irmãos, Padre Afonso e Dr. Carlos, foram chamados a Antignano, para onde Ozanan, havia sido levado, como lugar mais saudável. Ali ainda corrigiu o livro "Peregrinação ao País do Cid" e escreveu comentários baseados nos Salmos, que o Padre Lacordaire publicou com o título "Livro dos Enfermos". A fraqueza não o permitiu escrever mais.

Ozanam havia planejado comungar no dia da Assunção de Maria -15 de agosto. Trouxeram-lhe um carro, que recusou, dizendo dever ser para a Casa de Deus seu último passeio a pé neste mundo. Os habitantes de Antignano olhavam compassivos o "piedoso estrangeiro" andando lentamente, amparado pela esposa. O Vigário que, igualmente, estava moribundo, ao saber que Ozanam iria comungar, fez.se transportar para a igreja e, também, pela última vez, distribuiu a comunhão.

Ozanam agradece a Deus os sofrimentos

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Ozanam piorou consideravelmente, concordando os seus em reconduzí-lo à França, que ele desejava rever. No dia 23 de agosto, aniversário de seu casamento, conseguiu um ramo de mirta, que ofereceu à esposa, para o que foi até a varanda iluminada pelo sol poente. Em pé, sustentado pelos irmãos, falou à Amélia: "Espero que, comigo, bendigas a Deus por nossas dores". E abraçando-a: "Eu agradeço a Ele as consolações que tu me deste".

Ao deixar a casa onde, por vários dias, admirara com sua esposa as maravilhas da Criação e onde tantos méritos ganhara para a sua salvação, Ozanam permaneceu no terraço alguns instantes em contemplação. Depois, juntando as mãos exclamou: "Oh! meu Deus! Agradeço-vos os sofrimentos e as aflições que me enviastes nesta casa. Aceito-os como expiação das minhas culpas!" Voltando-se para a esposa, repetiu: "Quero que também bendigas a Deus pelas nossas dores."

A morte de Antônio Frederico Ozanam

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Verdadeira procissão de amigos, confrades e humildes camponeses acompanhou-o até Livorno, onde embarcou. Por onde passava recebia saudações que agradecia com triste sorriso. Viajou no camarote, alegrando-se por ver as praias da Provença. Em Marselha, recebido pela sogra e família da esposa, disse: "Agora, que restituo Amélia a boas mãos, entrego-me a Deus, que fará de mim o que quiser". Chegando em casa, deitou-se para não mais se levantar.

A notícia de sua chegada espalhou-se velozmente e logo a casa tornou-se centro de peregrinação: sacerdotes, religiosos, confrades vicentinos procuravam contemplá-lo pela última vez, o que se tornava impossível, dado seu doloroso estado. Só os membros da família cercavam seu leito. Quase insensível ele parecia não sofrer muito. Uma calma de morte sucedeu à anterior agitação. Era a calma de uma tarde serena que antecede às noites felizes.

A morte se avizinhava. Pediu os últimos sacramentos. Ao Padre afirmou: "Por que temeria a Deus se o amo tanto?" Amanheceu o dia 8 de setembro - Natividade de Nossa Senhora – no quarto, a esposa, irmãos e parentes. No quarto vizinho, vicentinos, ajoelhados, rezavam. Ele dormitava tranqüilamente. De repente, abriu os olhos, como fitando alguém, levantou as mãos e gritou: "MEU DEUS, MEU DEUS, TENDE PIEDADE DE MIM!" Foram suas últimas palavras. Entrou em agonia.

Eram 8 horas da noite quando morria Antonio Frederico Ozanam, inspirador, fundador e propagador incansável da Sociedade de São Vicente de Paulo; valente defensor da Igreja de Cristo, dos humildes e injustiçados; amigo inseparável da verdade; sociólogo de visão profética que advertiu com desassombro os governantes e os poderosos contra os perigos da miséria e da opressão; aquele que consagrou a vida ao sublime ideal do amor ao próximo por amor a Deus.

Morto Ozanam, três cidades reclamavam a honra de servir-lhe de derradeira morada: Marselha, onde falecera; Lião, onde morara com sua família e Paris, onde desenvolvem seu apostolado. Em Lião havia o jazigo da família. Mas Amélia tornou claro que ele, em vida, expressara o desejo de sepultar-se em Paris, no seio da juventude que tanto amara e pela qual dera a vida. O Padre Noirot deu-lhe razão. E Paris conseguiu a preferência.

O sepultamento de Ozanam

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Devendo o corpo ser embalsamado para suportar a longa viagem até Paris, pediu a família aos médicos fosse constatada a causa da doença que o matou, sendo verificado que o rim direito estava completamente destruído por motivo de lenta inflamação. Mas, que motivou essa inflamação? Teria sido câncer, doença então pouco estudada e conhecida? No tempo não havia laboratórios especializado e muito menos raio X. Assim, não se ficou sabendo de que morreu Ozanam.

Levado a Paris, o corpo foi depositado na igreja de S. Sulpício, perante grande concorrência de estudantes, amigos, professores e alunos da Sorbona, operários e centenas de vicentinos. Todos manifestavam dor profunda. Celebrada Missa, colocaram o féretro numa capela subterrânea da igreja, em caráter provisório. Pretendiam levá-lo para o cemitério de Montparnasse, mas o Padre Lacordaire conseguiu transladá-lo para a igreja S. José de Carmes, da sua Ordem.

Havia lei proibindo sepultamento nas igrejas. Amélia, atendendo ao desejo de Ozanam, que queria ser enterrado numa igreja, conseguiu com o Ministro dos cultos, amigo desde a juventude, permissão para que o corpo lá ficasse, como se ele não soubesse. Amélia não pôde assistir à inumação pois era dentro da clausura vedada às mulheres. Mais tarde, obteve de Pio IX autorização para chegar até o túmulo passando pelo jardim do convento.

Extinta a lei proibindo o sepultamento nas igrejas, Amélia deu ao túmulo a forma de catacumba romana, com inscrição em latim mencionando trabalhos e méritos.de Ozanam, e, por último, Lacordaire apôs as palavras do Anjo às Santas Mulheres: "POR QUE BUSCA.S ENTRE OS MORTOS AQUELE QUE ESTÁ VIVO?" No centenário de Ozanam, os vicentinos do mundo inteiro construíram na cripta um mausoléu de mármore com um altar defronte para celebração de missas.

Desde a hora do seu sepultamento, constantes hão sido as manifestações exultantes e serenas pela sua imortalidade no céu e na terra. O Reitor da Faculdade de Letras de Paris repetia aos presentes as palavras de Dante: "Não lhe choreis a morte, pois é a imortalidade que começa". Para Léonce Curnier, "a auréola da santidade que o cercava, quando vivo, nada perdeu do seu brilho". O Jesuíta Villefort sustentava estar ele na posse da glória eterna.

A glorificação de Ozanam

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Não foram somente os homens de letras, professores universitários ou sacerdotes eminentes que destacaram a grandeza de Ozanam. O Papa Pio IX, que o conheceu de perto, exaltava-lhe a figura de verdadeiro cavaleiro de Cristo. Leão XIII apontou-o como modelo para seus concidadãos e sobretudo modelo de religião e de boas obras. Pio X viu nele um dos mais distinguidos campeões da ciência cristã. Qual o mortal que já recebeu tal consagração?

A verdadeira glorificaÇão de Ozanam fundamenta-se na Sociedade de São Vicente de Paulo, "honra e glória dos tempos atuais e humanamente inexplicável, porque é realmente obra de Deus" (Cardeal Vanutelli). Bento XV aponta-a como extraordinária efusão do apostolado e ação social, e Pio X, que a incluiu nas intenções do Apostolado da Oração, afirmava que ficaria muito feliz se em cada paróquia do mundo existisse uma Conferência da Sociedade de São Vicente de Paulo.

Com a morte, muitas glórias humanas, muitos nomes considerados imortais, caem depressa no esquecimento. Mas, para Ozanam bem se pode aplicar a exclamação de S. Paulo: "Ó morte, onde está a tua vitória ?" Desde o momento em que seu corpo foi recebido carinhosamente pela irmã terra, começaram a reboar no silêncio do seu túmulo as palavras do anjo: "Não deve ser procurado entre os mortos aquele que está vivo". Na verdade, Ozanam continua sempre vivo.

A semente lançada em Paris,em 1833 tornou-se árvore que estendeu seus galhos por toda a terra, "dando sombra e consolo aos que padecem", Como disse o Cardeal Verdier, a Sociedade de São Vicente de Paulo abriu para a humanidade uma era nova com seu aposto lado leigo, de formas numerosas e múltiplas, que será hoje e será amanhã a mais bela esperança da Igreja em todo o universo. Obra de assistência mas também de santidade.

A beatificação de Ozanam

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Pela sua vida intemerata, pela sua ação apostólica, pelo seu devotamento à causa da Igreja, Ozanam pode ser considerado um Santo de nossos dias. Desde 1925 a causa de sua beatificação foi introduzida na Santa Sé. E desde então os confrades vicentinos do mundo inteiro recitaram a oração composta pelo Cardeal Amet, implorando a Deus possa ele merecer as honras dos altares.

E ouvidas as preces, a sua Santidade o Papa João Paulo II, testemunhou com uma bela homilia, durante a missa de beatificação de Antônio Frederico Ozanam no dia 22 de agosto de 1997, a importância da Sociedade de São Vicente de Paulo e de seu fundador.

Desde então, os vicentinos de todo o mundo esperam confiantemente a canonização do Beato Antônio Frederico Ozanam, cuja proteção evidente à Sociedade de São Vicente de Paulo, a tem feito sobreviver, de modo inexplicável pelos meios temporais mas compreensível pelo seu valimento junto à Divina Providênica.

Que a vida luminosa de Ozanam, aqui retratada de modo resumido, sirva, a todos os que a lerem, de estímulo aos que vivem o ideal da caridade evangélica e de atração aos que dele estão afastados.

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